| Capa "Esquinas" do duo ANAVITÓRIA. |
O álbum “Esquinas”, do duo ANAVITÓRIA, soa inteiro como o retrato dessa travessia, com a delicadeza de quem aceita que amadurecer não é um acontecimento, mas um processo. “Se eu usasse sapato” abre o disco pelo caminho da hipótese, aquele desejo de reescrever a própria história que só aparece quando já é tarde demais para voltar. Em seguida, “Minto pra quem perguntar” expõe a força performada que a vida adulta exige de parecer tudo bem mesmo quando nada está firme por dentro.
A maturidade emerge quando o disco abandona a fantasia romântica. “Não sinto nada” é um gesto de honestidade que não precisa de culpa, e “Ter o coração no chão” entende que o amor não depende mais do terremoto para ser verdadeiro. Há um deslocamento importante aí, o afeto deixa de ser medida de intensidade e passa a ser medida de tranquilidade, um aprendizado que só chega depois de tantas esquinas erradas.
As faixas centrais tratam das despedidas sem recorrer ao drama exagerado. Em “Água-viva”, a casa guarda rastros do outro, e é na persistência desses objetos que o luto se instala. Em “Mesma trama, mesmo frio”, o desconforto de reencontrar quem já foi íntimo sem saber onde colocar os olhos cria uma espécie de geografia afetiva nova onde o amor que já foi, mas ainda pulsa em algum lugar entre a memória e o corpo.
Depois de atravessar essas curvas, “Quero contar pra São Paulo” devolve ao afeto um desejo de amplitude. A cidade vira confidente e testemunha, como se amar, em certo ponto da vida, exigisse também a coragem de assumir a história diante do mundo. É o amor como gesto expansivo para se reconhecer inteiro.
O fechamento do álbum com “Doce futuro” e “Navio ancorado no ar” deixa a gente naquele território meio movediço onde todo adulto acaba parando sem querer. Não é mais o que já ficou para trás, mas também não é o que ainda não começou. É um intervalo estranho, quase confortável, quase incômodo, como ficar na fechadura da porta espiando a vida dos dois lados. Não existe promessa nem garantia ali, mas existe uma espécie de verdade, é nesse entremeio que tudo realmente se transforma, mesmo quando a gente não percebe.
Assim o Esquinas se encerra admitindo que ninguém realmente sabe. A vida adulta não acontece em um aniversário e nem em um contrato, mas naquele segundo silencioso em que entendemos que não há retorno possível, e, ainda assim, seguimos andando. Crescer é esse ato um pouco trágico, um pouco teimoso, e profundamente humano de continuar virando esquinas mesmo quando a próxima rua é desconhecida.